Abril o mês em que fui ao fundo várias vezes e renasci



Abril chega mais tarde ao blogue mas cá está ele.
Na primeira semana andei um bocadinho nas nuvens com certos acontecimentos que me trouxeram ainda mais paz de espírito e por isso acabei por me desligar um bocadinho de tudo isto  - até fiz um detox digital -  mas falo-vos disso num outro post. 

Mas Abril é sempre um mês especial, porque é nele que se celebra o aniversário do blogue e acreditam que este ano já faz 7 anos? Há alturas em que tenho de ir confirmar a data do primeiro post para me relembrar de que sim, este cantinho que tanta coisa boa já me deu, está um crescido e é exactamente por ter um orgulho imenso neste espaço, que este será um mês de celebrações por aqui com boas surpresas :)

Mas se hoje me sinto numa paz e amor comigo própria, vocês sabem que nem sempre foi assim e a verdade é que Abril sempre foi um mês muito complicado para mim, porque Abril costumava trazer águas mil mas agora traz sol, calor e vontade de colocar o pé na areia e isto sempre foi algo que me causou muita ansiedade porque eu sempre me senti muito mal a ter de me despir na praia, sentar-me na areia e lidar com aquele corpo que tanta tristeza me dava. 


Era em Abril que eu começava em força dietas restritas, apertava com o exercício e tomava mil e um suplementos milagrosos na esperança de poder chegar aquele corpo seco, liso e sem falhas que eu tinha idealizado e era também em Abril que eu me olhava mais a fundo ao espelho e sentia o maior ódio por mim mesma. Reparem, eu nunca senti um ódio tremendo de desejar mesmo mesmo mal a ninguém, nem mesmo ao sem perna desejei verdadeiramente isso, sim fiquei triste e desapontada, fui enganada e talvez na altura tenha dito que os odiava, mas a verdade é que olhando para trás eu nunca o senti verdadeiramente, agora quando se tratava de olhar para o meu corpo eu consegui efectivamente odiar-me.

Conseguem entender a gravidade disto? O mau e triste que é conseguirmos ser o nosso pior inimigo? 
Olhando para trás eu consigo entender agora, que vivi grande parte da minha vida muito amargurada comigo própria, mesmo depois de ter vencido tantas batalhas como o excesso de peso, a bulimia ou os ataques de pânico. 

A verdade é que Abril sempre foi um mês de muitas batalhas interiores para mim exactamente pelo aproximar do Verão e curiosamente fez agora um ano que Abril me levou a um buraco muito fundo e me fez efectivamente perceber que já chegava de toda esta obsessão com o corpo. 

Já vos contei por aqui que o ano passado no início do ano entrei numa dieta muito restrita. 

Eu queria secar, queria ter abdominais definidos, uma massa gorda baixíssima, queria ter definitivamente o corpo que sempre cataloguei como perfeito, aquele que me iria fazer feliz como eu nunca me tinha sentido comigo própria e por isso juntei-me a uma pessoa que preparava atletas para competições de culturismo. 

A dieta era muito restrita, eu pesava tudo o que comia e comia sempre a mesma coisa dia após dia, depois, num dia por semana podia fazer uma única refeição livre, refeição essa que eu ansiava com todas as forças. Com esta dieta eu treinava 7 dias por semana sempre com cargas muito altas, aliando aulas de cycling para ajudar a queimar gordura. Tomei suplementos, pesei-me dia sim dia não e comecei a ver o meu corpo a perder gordura, a secar a uma boa velocidade e finalmente comecei a ver o corpo que sempre desejei. 

O problema é que este ritmo não me levou somente a gordura, mas começou a levar-me energia e transformou-se rapidamente numa obsessão muito doentia. Eu não comia nada que não fosse pesado e colocado meticulosamente numa aplicação, sempre que tinha de ir a um restaurante entrava em paranóia e pensava mentalmente quantas gramas equivalia o que eu estava a comer e para além disso comecei efectivamente a sentir-me cansada. Houveram pessoas que me disseram que a minha cara estava demasiado magra e com aspecto doente, mas eu que estava finalmente a alcançar o corpo que queria achei tal como achava quando tive bulimia que as pessoas só me queriam ver gorda ou seja, psicologicamente eu tinha regredido exactamente aos anos em que passava dias com a cabeça na sanita. 

Até que chegou o final de Março eu estava com um corpo maravilhoso, tinha uma massa gorda invejável mas sentia-me estupidamente infeliz porque continuava a ver as mesmas imperfeições que via antes de todo este processo e foi aqui que aos poucos o meu corpo começou a dar de si e eu fui parar ao Hospital com a maior dor de cabeça da minha vida, com uma anemia muito grande, um estado hormonal completamente desregulado e acima de tudo com o corpo sujeito a um nível de stress tão grande que o médico disse-me com todas as letras que se eu não queria viver mais o caminho era exactamente aquele. 

E foi aqui que tudo mudou. 

Abril chegou e com ele uma frustração imensa mas que era completamente diferente, de todas as frustrações que senti em outros meses de Abril de tantos anos. Esta era uma frustração de quem tinha regredido psicologicamente muitos anos, era uma frustração de quem acima de tudo estava cansada de lutar por um corpo que tinha idealizado como perfeito, mas que ao chegar lá percebeu que nunca será suficientemente bom enquanto a cabeça não mudar.

E a cabeça mudou. A cabeça percebeu depois de um grande susto que é preciso estar limpa, consciente do que é ou não correcto e acima de tudo ter coragem para admitir que se errou para começar a caminhar no sentido certo, por isso baixei as armas, decidi que estava cansada de ter passado 15 anos da minha vida a lutar contra mim mesma, procurei ajuda tanto nutricional como psicológica e comecei a trilhar um caminho para chegar a onde estou hoje a este Abril de 2017 onde não tenho a massa gorda mais baixa de sempre, onde tenho celulite, onde tenho estrias e até uma barriguinha mas caramba se pela primeira vez na minha vida eu não me sinto mais bonita e mais forte do que nunca. 

Engraçado que falava com uma grande amiga há umas semanas e lembrámo-nos que exactamente em Abril do ano passado eu recebi um convite para ir à televisão falar da minha bulimia e do que tinha vencido e na altura eu rejeitei dizendo que estava a trabalhar, mas a verdade é que o fiz porque eu estava destruída por toda a obsessão com o corpo e não seria benéfico para mim psicologicamente falar de uma luta que tinha travado anos antes quando naquele exacto momento estava a travar outra muito semelhante. 

Não quero que pensem que eu defendo a obesidade ou que as pessoas não devem tentar melhorar porque não é verdade, vocês sabem que eu já tive excesso de peso e considero que sou muito mais feliz agora que o perdi. O que eu defendo é que acima de tudo, temos de parar de lutar contra nós próprias, temos de parar de exercer bullying constante sobre o nosso corpo e o nosso espírito só porque não somos iguais a determinada pessoa, acima de tudo o que eu defendo é que cada um é único e todos nós temos o direito de desejar melhorar fisicamente mas é preciso ter muito cuidado com os limites do que começa a ser saudável ou não. 


  • Porque não conseguir comer sem pesar coisas não é saudável. 
  • Porque comer uma refeição mais calórica e ficar com peso na consciência e pensar que temos de treinar a seguir para queimar, não é saudável.
  • Porque estar constantemente a ver defeitos no corpo não é saudável.
  • Porque acima de tudo tentar ser igual a outro não é saudável.

Eu entendi finalmente isto e deixei de lutar contra mim mesma, curiosamente foi neste momento que ao apaixonar-me por outro desporto comecei a tornar-me mais forte, mais capaz e não é que o meu corpo começou a mudar lentamente. Nesta barriga já viveu uma grande banha que agora não existe, mas eu sei que nunca a terei seca, lisa ou com abdominais definidos porque eu não sou nem quero ser focada nesse objectivo. 

Porque a verdade é que eu já estive nesse patamar e não fui mais feliz, por isso e acima de tudo com todo o coração eu digo-vos que aos 31 anos eu quero mesmo é ser feliz a treinar, a superar-me e  a comer tranquilamente sem medos e posso dizer-vos finalmente que chego a Abril de 2017 com a certeza de que me amo profundamente.

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5 comentários :

  1. óptimo!!!! Já somos dois a amar-te então :)
    Linda e única! E a unicidade de cada um é o que torna o mundo algo maravilhoso cheio de diversidade :)

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  2. Espero que a partir de agora abril só te traga coisas boas :) Beijinhos*

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  3. És uma mulher de força e uma inspiração <3 E eu tenho uma história tão parecida com a tua, já te disse não já? Beijinho

    thebrunettetofu.blogspot.pt

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  4. Muitos parabéns por todas essas batalhas vencidas! Que Abril venha carregado de sorrisos.:D


    Another Lovely Blog!, http://letrad.blogspot.pt/

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