Super Humanos #2 - Cátia Matias, Voluntária do CASA


Em Dezembro quando lancei este projecto prometi-vos trazer um super humano incrível todos os meses e por isso começamos esta última segunda-feira de Janeiro com uma pessoa magnífica, que tem o dom da palavra e o dom do amor no coração. 

Venham então conhecer a Cátia Matias e os seus super poderes, prometo-vos que vão chegar ao fim da entrevista com um sorriso nos lábios. 


1 – Cátia, antes de mais apresenta-te. Quem és tu?  

Sou uma pessoa normal que só não gosta muito de ficar a ver as coisas acontecerem. 
Como diria Fernando Pessoa “Quem tem alma não tem calma”, eu geralmente não tenho calma e odeio que me digam para ter.


2 – És voluntária no CASA. Como surgiu este projecto na tua vida?

Desde o tempo da faculdade que tinha vontade de fazer isto, mas ia sempre adiando por algum motivo parvo. Era como as desculpas que algumas pessoas inventam a si mesmas para não irem treinar. Um dia, sem nenhum motivo em especial “googlei” “sem abrigo” e encontrei o CASA. Achei o trabalho que faziam incrível, mandei um e-mail e aí começou a aventura que já dura há 3 anos.



3 – Que tipo de actividades desenvolve um voluntário do CASA?

O CASA é uma associação de primeira linha, ou seja, prestamos alguns dos cuidados mais básicos e imediatos a que qualquer pessoa devia ter direito: uma refeição quente, roupa e agasalhos. Mas fazemos muito mais do que isso. Conversamos ou simplesmente ouvimos o que as pessoas nos querem dizer. No início eu fazia a volta de 15 em 15 dias, todos os sábados. Confeccionamos as refeições e vamos para a rua entregar em vários pontos de Lisboa. 

Há um ano aceitei um desafio de maior responsabilidade: fui convidada para fazer parte da coordenação do CASA Lisboa. Juntamente com uma equipa fantástica e muito, muito pequena estou responsável pela parte de comunicação e imagem: faço a gestão das redes sociais da associação, trato de eventos, donativos e tudo que haja para fazer.

4 – Qual foi o melhor e o pior momento enquanto voluntária?

O melhor momento são todos aqueles em que vou para a rua e sinto que nessas duas ou três horas consegui fazer a diferença na vida de alguém. É impossível contar aqui todos os momentos de euforia que já senti quando estamos a lutar muito por uma coisa (um donativo mais volumoso, um apoio ou outra coisa simples como uma consulta no dentista para alguém que realmente precisa) e conseguimos. Os momentos maus são aqueles em que me cai a ficha e percebo que não posso fazer mais do que o que acabo de fazer.


5 – Diz-me é fácil desligar a ficha quando terminas uma volta do voluntariado na rua?

Confesso que quando estamos na rua, apesar das situações graves com as quais nos deparamos, é tudo muito leve. Vamos para levar uma refeição quente e um sorriso, quando conseguimos sabemos que parte da nossa missão foi cumprida. Mas nos dias de chuva ou muito frio chego a casa ao quentinho e dá-me um arrepio e um desconforto no coração por saber que aquelas pessoas ficaram ali.



6 -  Para quem diz que não tem tempo para ser voluntário, descreve-me um dia teu desde que te levantas até te deitares.

Eu trabalho numa agência e por isso é sempre uma incógnita saber a que horas vou sair. Agora até tenho ido à volta à quarta, por isso vou descrever a última vez que fui. 

Acordei as 6:30, tomei o pequeno-almoço, fui ao ginásio. Entrei no trabalho às 9:30, fiz as minhas tarefas diárias, tive uma reunião às 12:00. Fui almoçar à uma e tal, bebi um café na rua e voltei ao trabalho às 14:30 e trabalhei até às 18:30. Fui a correr para as Amoreiras para uma reunião com uns parceiros do CASA (já cheguei um bocadinho atrasada). Felizmente eles tinham preparado um lanchinho o que foi muito simpático.  

Às 19:30 fui para a sede do CASA em Sete Rios, arrumámos tudo e saímos para a rua às 20:30. Fizemos a volta com a companhia de uma reportagem da TVI por causa da vaga de frio. Cheguei a casa às 23:00, comi uma sopa e tomei um banho quente para ver se aquecia.

7 – Achas que somos um povo realmente solidário ou somos mais “solidário comodista”?

A maior parte das pessoas é solidária, mas precisa de ser muito estimulada. Tento fazer isso no meu dia a dia. Durante algum tempo poucas pessoas sabiam que eu fazia voluntariado, mas depois achei que o CASA ganhava mais se eu pudesse influenciar as pessoas que me rodeiam a juntar-se a nós. Não é bem como comprar votos ou converter as pessoas, eu simplesmente falo sobre isto, peço ajuda quando preciso e as pessoas vão cedendo e vão para casa pensar: “E se eu me juntasse, também?”.
Eu deixo o bichinho. 

No entanto, sei que há muita gente que já não deve poder comigo ahaha, eu ando sempre a pedinchar, sobretudo nas redes sociais porque sei que chego a muitas pessoas dos meus contactos. Mas por exemplo, no meu trabalho os meus colegas ajudam sempre, fazem-me material para eventos, ajudam com ideias e afins. 

Depois ainda existem aquelas pessoas que vão para as redes sociais criticar quem ajuda os animais porque existem pessoas a precisar, quem ajuda refugiados porque aqui em Portugal já há muitas pessoas com problemas, mas na verdade não levantam o rabo do sofá para ajudar ninguém.



8– No Natal passado tu juntamente com mais pessoas criaram a campanha incrível "Natal dos Esquecidos", totalmente pró-bono  (considerada das melhores campanhas de Natal de 2016). Como surgiu esta ideia e acima de tudo como se arranja tempo para isto?

A ideia de fazer uma campanha pró-bono foi do Tiago Soares (meu colega na FUEL) que depois falou com a Teresa e Mariana (ex colegas nossas que estão na Ogilvy Paris) a quem pediu uma ideia criativa. 

Elas responderam com uma ideia que nos encheu o coração (vejam aqui a ação) e a partir daí foi fazer acontecer. Uma campanha que nos custou 20 euros, muitas horas de dedicação e amor. Uma equipa de 4 pessoas, mais empresas que nos ajudaram muito e claro os voluntários do CASA. Foram 4 semanas loucas: trabalhar durante o dia no nosso emprego, trabalhar no projecto de Natal pós laboral, ir para a rua recolher cartas, vídeo conferências para reunir, mil e-mails, mil contactos de pessoas e empresas. 

Sinceramente, só foi possível não ter entrado em colapso porque estávamos a fazer tudo com o maior amor do mundo.

9 – Como podemos ser solidários em tempos de crise?

Dando o nosso tempo que, no fundo, é o bem mais precioso. Pode até só ser uma hora ou duas por semana, a recompensa ao chegar a casa é enorme. Até podem achar que não estão preparados para irem para a rua falar com as pessoas, mas podem fazer voluntariado com a vossa profissão.


10 - O que mais te orgulha enquanto voluntária?

Saber que esta experiência fez de mim uma pessoa mais completa. 
Sinto-me mais capaz de não desistir na primeira adversidade, porque às vezes é duro e difícil mudar o mundo, mas afinal de contas não é impossível.
  

11 -  O que tens aprendido ao longo desta tua experiência?

Que não podemos julgar as pessoas sem saber a sua verdadeira história. O CASA tem-me ensinado a ouvir mais e a acreditar mais nas pessoas.


12 – Por fim para quem não conhece este projecto, diz-nos porque é que vale mesmo a pena ser voluntário no CASA? 

O CASA está cheio de pessoas maravilhosas que estão dispostas a fazer mais, a ir mais longe, a sair do conforto do seu sofá e a mudar algo na vida de alguém… isto contagia e é por isso que precisam de vir ter connosco para perceber que há sempre algo de bom para fazer.  


Se ficaram curiosos com o trabalho desenvolvido no CASA saibam mais sobre voluntariado aqui.
Para além disso podem sempre ajudar fazendo um donativo que tanto pode ser em dinheiro como em bens materiais, vejam como aqui. Deixo também os meus agradecimentos especiais ao Nuno Pereira pelas fotografias maravilhosas que tirou numa das voltas do CASA. 

E se conhecem outros super humanos que merecem ter destaque neste projecto, não deixem de partilhar comigo para o email: lollytaste@gmail.com. 





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14 comentários :

  1. Gostei muito desta entrevista, mostra-nos como ainda há pessoas humanas :) fizeste me ter esperança na humanidade :)
    Um mega beijinho

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    1. obrigada do fundo do coração pelo carinho :) beijinhos

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  2. como tu dizes acima "prometo-vos que vão chegar ao fim da entrevista com um sorriso nos lábios" é mesmo verdade. A Cátia parece ser uma pessoa incrível, é bom saber que no meio de tanto disparate a que andamos a assistir nos últimos tempos existam pessoas assim com um coração do tamanho do mundo.

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    1. é verdade a cátia é mesmo uma excelente pessoa e que se preocupa genuínamente com os outros :)

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  3. Adorei :)
    Beijinhos segui o blog :)
    http://a-carlota.blogspot.pt/

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  4. Ainda há pessoas com um grande coração (e muita força de vontade!)

    Gostei muito de ler a entrevista!

    Beijinho
    http://demantanosofa.blogspot.pt/

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  5. Parabéns à entrevistada e à entrevistadora :)

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  6. Obrigada a todas pelo carinho :) <3

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    1. obrigada eu minha querida por teres aceite :)

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  7. Adorei esta tua rubrica! São pessoas como a Cátia que nos dão força para continuar <3

    thebrunettetofu.blogspot.pt

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