Bulímia e a solidão


Confesso-vos, nunca pensei receber o carinho que recebi depois de ter escrito sobre a minha Bulimia aqui. Foram vários os emails de mulheres que passaram pelo mesmo e de meninas que estão numa situação semelhante neste momento, e se na altura escrever aquele post criou-me muitas dúvidas, hoje agradeço profundamente tê-lo feito, por mim, pela leitora que me inspirou a fazê-lo e por todas que decidiram falar comigo depois. 

Eu disse-vos que tinha muito mais para vos falar sobre este período da minha vida e hoje falo-vos sobre a solidão que um distúrbio alimentar nos traz. 


Quando eu comecei a vomitar, não emagreci logo, primeiro precisei de atinar com a questão do vómito que já vos expliquei não ser fácil ao início e depois porque como eu queria uma coisa rápida mas não queria deixar de me empanturrar de comida, acabei por andar ali num círculo vicioso de compulsão e vómito que não traziam grandes resultados. 

Até que começou a ser mais fácil para mim fazê-lo, e comecei também a perceber que não podia comer mil porcarias porque não ia ter resultados, portanto entrei numa onda de cortar os hidratos nas refeições e só comia cenoura ralada e salada com carne ou peixe e os lanches eram só iogurtes.
Como já vos tinha dito a minha mãe trabalhava por turnos, portanto para mim era fácil manter esta situação sem que ela reparasse e só quando comíamos juntas, é que eu lá fazia o esforço de comer hidratos mas a pensar que tinha de arranjar forma de vomitar aquilo o mais rápido possível.

E foi devido a esta situação que passei a não querer almoçar nem lanchar com os meus colegas. 

Eu morava ao lado da escola, portanto desculpava-me sempre que ia comer a casa e evitava a todo o custo ter de comer com eles. Mas havia alturas ao fim-de-semana que nos juntávamos para ir dar uma volta ao colombo ou simplesmente para estudar e ai não havia volta a dar, eu ia, comia Mc Donalds com eles e depois ia a correr para a casa de banho vomitar. 

Acham que me ocorria comer uma salada ou uma coisa mais saudável? Óbvio que não, primeiro porque eu tinha medo que gozassem por estar a fazer dieta e depois porque se vomitar era fácil para mim porque havia eu de privar-me de uma coisa que gostava?

Comecei a emagrecer aos poucos, não foi um emagrecimento rápido o que fazia com que ninguém suspeitasse de absolutamente nada, portanto eu continuei durante meses com este comportamento até que comecei a sentir-me efectivamente sozinha, ou melhor comecei a sentir que ninguém reparava nos resultados do meu esforço.

Eu queria mudar, queria uma barriga lisa, queria um corpo de modelo, queria ser bonita, queria ter um namorado e para isso andava há meses, a sujeitar-me a vomitar todas as minhas refeições, para poder atingir os meus sonhos e perder aquelas ancas horríveis que tinham sido motivo de gozo, mas parecia que o meu esforço não dava frutos. Eu queria ouvir "Vânia estás mais magra parabéns" mas só ouvia "andas estranha".

Achava eu que a minha mãe também não reparava em mim, que não reparava no que se estava a passar, claro que estava enganada, há já algum tempo que a minha mãe sabia que se passava alguma coisa, mas queria tentar perceber o quê, e eu que sempre achei que era invisível para o mundo entrei para um buraco ainda mais negro de me odiar por completo, de querer desaparecer desta vida porque não sabia fazer nada de jeito, não sabia emagrecer e tornar-me atraente. 

Sabem o que eu acho passados tantos anos? 

Que no meu inconsciente eu queria ajuda, eu queria que reparassem no que se estava a passar e que me dessem a mão, eu queria ser magra mas estava tão infeliz e com tantas dores, que no fundo eu só queria que alguém percebesse finalmente o que eu andava a fazer, e se na altura em que a minha mãe me apanhou na varanda a vomitar eu revoltei-me porque achava que ao querer tratar-me ela e os médicos queriam era ver-me gorda, hoje em dia sei que ao longo daquele percurso de tratamento eu agradeci no meu interior por ela me ter apanhado. 

E é isto que um distúrbio alimentar te traz. Não é só a magreza, não são só dores no estômago ou fraqueza, é a solidão, é a solidão de não poderes contar a ninguém o que fazes, é a solidão de te começares a afastar dos teus amigos porque não queres ter de comer o mesmo que eles, é a solidão de sentires que ninguém te compreende, que estás sozinha no mundo, e que ninguém repara em ti. 

É uma solidão que doí sabem? 

Porque da mesma forma que te distorce a imagem de cada vez que te olhas ao espelho e por mais peso que percas, continuas a ver-te como aquela miúda gordinha de ancas largas, faz-te também acreditar que as pessoas à tua volta pouco se importam contigo e com o teu bem estar e que nunca vão reparar no que estás a passar. 

Eu tive muitos momentos de solidão, tive muitos momentos em que realmente me senti sem ninguém no mundo que entendesse o que eu estava a passar, tive acima de tudo momentos em que depois de vomitar me senti tão mal que só quis colocar a cabeça na almofada e nunca mais acordar. Podem achar que são dramas de adolescente mas quem passa por um distúrbio alimentar sabe que sentimento é este, de uma solidão atroz que te consome por dentro.

E é por isto que eu sei que estas são das doenças mais difíceis de tratar, porque não é só o físico que mexe, é sobretudo toda a tua percepção errada da realidade que é colocada em causa, é acima de tudo a tua parte psicológica que fica totalmente devastada com todo o mal físico que te vais inflingido, é sobretudo sentires que carregas o mundo nas costas e que não podes partilhar esse fardo com ninguém.

A realidade é que todas estas sensações fazem parte destas doenças e mesmo quando descobrem o teu problema e te tentam ajudar, vais continuar a sentir-te sozinha porque vais achar que mais ninguém compreende o porquê de quereres emagrecer. É uma sensação que faz parte e a única coisa a fazer é tentares acreditar que vai chegar um dia em que vais efectivamente agradecer por alguém ter descoberto o teu fardo. 

6 comentários :

  1. o que mais me arrependo agora é do que perdi nesses anos... porque a bulimia controla-nos a um ponto que deixamos de querer fazer as coisas.
    Belo depoimento, é importante desmistificar os distúrbios alimentares porque as pessoas pensam que é uma escolha, quando não o é...

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    1. sim olhando para trás também sinto que perdi coisas muito boas desses anos, por ter medo de me confrontar com a comida, mas a verdade é que acho que ninguém é realmente feliz na adolescencia e isso faz parte. beijinhos grandes e mais uma vez obrigada pelo carinho

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  2. Não consigo imaginar o quão difícil seria passar por uma situação destas. És muito forte querida, isso sem hesitar!

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    1. é realmente duro, mas consegui :) obrigada pela força :-)

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  3. Partilhar e falar das coisas é um bom indicativo de que estamos no caminho certo :)

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    1. sem dúvida e é importante continuar a alertar para estes problemas :)

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