O luto


O luto é uma fase estranha na vida de uma pessoa. Nos momentos imediatamente a seguir a perderes quem amas, a vida desaba sobre a tua cabeça, sentes como se tivesses acabado de levar uma carga de porrada tão violenta que todo o teu corpo dói muito, porque o luto para além de te magoar psicologicamente dá-te dores físicas grandes. As pernas, os braços, tudo está dorido, tudo parece ter acabado de sair de um combate e na verdade não é assim tão idiota pensar nisto desta forma, porque no fundo sais de um combate onde não perdeste uma taça ou o primeiro lugar, perdeste uma vida, perdeste para sempre quem amas

Os dias a seguir não são bem dias, são fragmentos de coisas onde tu vais só estando, tens de ir aquele lugar buscar os exames e tu vais, tens de ir jantar com aquelas pessoas que te querem muito dar força e tu jantas, tens de regressar ao trabalho onde todos os teus colegas te tentam ao máximo apoiar e tu regressas, no fundo tu estás mas não estás. Tu ouves com atenção todos os conselhos que te dão, toda a força das pessoas que não te querem ver assim, mas não deixas de só estar porque tem de ser, porque tens de cumprir com as tuas obrigações sociais, porque no fundo tens de continuar a viver, mesmo que saibas que estás a viver uma aparência.


Infelizmente nos meus parcos 31 anos de existência já estive de luto 2 vezes, sendo esta a terceira, infelizmente na minha vida já me cruzei muito de perto com este sentimento de perda e é exactamente por isto que chega a uma certa altura em que por mais que saibas que as pessoas te querem dar força, que as pessoas te querem ver para cima, tu só queres que se calem, não porque te estejam a importunar, mas porque tu sabes que nada do que te possam dizer neste momento nem daqui a algum tempo irá reverter o sentimento de impotência que é veres partir um dos teus. 

Teres pessoas a darem-te força e sentires vontade de te fechar num armário para não as ouvir faz parte, elas não são chatas nem tu és insensível. Isto é o luto. 

E sim, os anos vão passar, esta dor vai diminuir, sim eu sei disso, depois vai instalar-se a saudade, a saudade constante de alguém que já não podes tocar, de alguém que já não podes sentir ou cheirar de alguém que esteve na tua vida e já não está.

De entre as várias fases do luto, há uma que é meio mesquinha, é aquela em que já passou algum tempo, tu entras em modo de resiliência e para o mundo cá fora, parece que aos poucos as coisas estão a assentar. O tema perda já não é tão falado, as pessoas aos poucos começam a esquecer aquela fase negra que viveste, e a vida começa a rolar à sua velocidade normal. 



Neste fase a que eu sempre chamei "a fase teatral" tu próprio acreditas que as coisas estão a acalmar, deixas de chorar, deixas de pensar tanto naquele momento fatídico, a tua rotina de vida já está mais do que encaixada e no fundo sentes que estás a superar, até que um dia por alguma razão, olhas para algo e vês um vulto, ouves uma voz, ou simplesmente de apercebes que aquele puff que tens na sala não deveria estar vazio, que ali antigamente havia uma vida que o usava incansavelmente para grandes sestas e te desmoronas, cais como um verdadeiro castelo de cartas e levas novamente aquela chapada inicial de teres perdido uma parte de ti.

Não há mal nenhum nisto acontecer, faz parte acredita em mim, faz parte de se estar de luto, faz parte acima de tudo de chorares os teus mesmo que não derrames uma lágrima, e não há um prazo de validade para isto terminar, não há uma altura em que tenhas de decidir que já não estás de luto, porque isto não se decide simplesmente acontece, e num dia qualquer de um mês ou ano qualquer vai chegar o dia em que a voz já não está presente e o vulto dá o lugar às imagens claras que guardas em molduras na tua casa. 

Até chegar aqui há um caminho longo a percorrer, que não sendo necessariamente sempre pautado por choro e depressão tem sempre uma coisa em comum a dor, que estando mais forte ao início ou mais suave com o passar do tempo te vai deixar durante muito tempo com um nó na garganta. 

Não lutes contra isso, não te retraias, mas também não precisas de chorar cascatas para mostrares ao mundo que estás a sofrer se não é isso que queres. Com a minha infeliz experiência neste estado de luto aprendi a não criticar, as pessoas são diferentes e precisam de se expressar de forma diferente, há quem chore muito, há quem grite, há quem não chore, há quem se mantenha com um ar quase sereno e por dentro sofre em silêncio, ninguém está correcto nem ninguém está errado, é assim que as coisas são e se quando amamos temos formas diferentes de o demonstrar quando sofremos a lógica é igual. 

Eu sei disto porque já passei duas vezes por todas estas fases e em ambas cheguei à parte em que te sentes resolvido com a situação. E agora volto a saber disto, porque acabei de regressar novamente à primeira fase e no fundo eu sei que só o tempo poderá curar. 

1 comentário :

  1. Sinto muito... Também sei o que é perder parte da nossa vida...

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