Das vitórias


Passaram exactamente 25 anos até voltar a fazer o pino, mas a semana passada finalmente consegui fazê-lo.

Há muitos anos que vivia em mim um trauma gigantesco com este exercício, tinha 6 anos e no recreio tentei fazer, cai e parti na cabeça, na altura os colegas que estavam comigo começaram a rir muito e só uma colega foi chamar as empregadas para me ajudarem. Desde essa altura instalou-se um medo em mim e nunca mais o consegui fazer.

Os anos passaram, eu acabei por engordar na adolescência e sempre que existia pino nas aulas de ginástica eu não fazia, porque era gorda, porque tinha medo de cair, porque sabia que não iria suportar o meu peso e tinha ainda mais medo de ser gozada, por isso nunca mais o voltei a fazer.

Até que a semana passada segunda feira no meu habitual treino na praia com os Outsiders Gym, o Ruben (instrutor da manhã) colocou o pino como um dos exercícios e eu congelei. Fiquei a olhar para a parede e o meu corpo simplesmente parou, não tinha reacção e na minha cabeça só conseguia ouvir aqueles risos idiotas de miúdos com 6 anos enquanto eu estava no chão com dores. Na altura o Ruben disse para eu começar então com as mãos no chão e ir subindo os pés na parede devagar para ganhar confiança, fui fazendo isso mas de cada vez que me via mais vertical começava a tremer. Terminei a aula um bocado frustrada porque eu odeio não conseguir fazer as coisas por causa de traumas.

No dia a seguir fui à box treinar e o que havia para menu? HandStand Push Ups claro está, eu voltei a tremer, mas o professor deu a opção de quem não quisesse/conseguisse fazer, para fazer flexões numas barras paralelas e foi o que fiz, no entanto passei o treino a olhar para aquelas miúdas, as tais que me inspiram, as tais que me motivam, as tais que mostram que as mulheres conseguem o mesmo que os homens e decidi naquele momento que se em dois dias seguidos eu tinha sido colocada à frente de um trauma estava na altura de o vencer.

E assim foi, quarta-feira fui treinar à praia e disse ao Ruben que tinha de vencer o medo, por isso no final do treino ia experimentar fazer o pino. As primeiras tentativas foram só idiotas, parecia um bebé a tentar colocar-se de pé, as pernas não subiam, ou então só subia uma e a outra ficava ali pendurada sem saber o que fazer, até que assim depois de umas quantas tentativas consegui elevar-me e dei um grito tão histérico que se deve ter ouvido em Cascais. Depois o Ruben disse-me que para passar à próxima fase que é tentar equilibrar-me sem parede, teria que aguentar primeiro 3 sets de 1 minuto na parede, eu disse-lhe que achava que conseguia mas ao final de 20 segundos não consegui.

E a verdade é que conseguir fazer este pino ao final de 25 anos, teve um significado muito maior do que vocês imaginam, mostrou-me que eu sou mais forte do que imagino, mostrou-me que duvido muito das minhas capacidades sem nenhuma razão e que se consegui vencer este medo, também vou conseguir vencer a batalha que tenho com a comida.

Este é um pino tosco, muito pouco perfeito mas é o MEU pino, é o meu símbolo de vitória sobre um medo e isto já ninguém me tira. 

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