O peso de um número


Hoje decidi falar-vos sobre algo que algumas vezes me é questionado que é se faço avaliações na balança de bioimpedância e se confio nos resultados.

A minha resposta para as duas questões é: Não.
A verdade é que os tempos mudam e as obsessões também, e se há uns anos atrás as pessoas eram fixadas no valor do peso, hoje em dia com mais informação todos nós já sabemos que o peso não reflecte a nossa composição corporal, então as obsessões dos tempos modernos são com a massa gorda e a massa magra. O que há de comum em ambos os casos - números, simples números e é disso que vamos falar hoje. 


Quando há 3 anos eu fiz a minha avaliação que deu o resultado de 30% de massa gorda, fiquei chocada como é óbvio e achei que aquilo estava errado, no entanto depois de começar a reeducação alimentar e a treinar como deve ser, percebi que efectivamente aquele valor estava certo pois a minha alimentação na altura não era assim tão correcta como eu imaginava ser.

"Ah eu não como fritos, nem muito pão, nem gorduras, até sou saudável", disse eu à dietista que me acompanhou nessa altura, mas a verdade é que me esquecia dos cereais "fitness" que comia de manhã, da pizza que comia "só" à quarta-feira porque era dia de promoção, ou das jantaradas de fim de semana bem regadas a comida e bebida. Como é obvio depois de uma análise profunda à minha alimentação, eu comia mal.

Mudaram-se os hábitos, as rotinas, passei a comer bem, passei a treinar cada vez melhor, o meu corpo foi mudando e eu fui-me pesando religiosamente na balança do meu ginásio (que é uma das melhores e mais completas balanças de bioimpedância existentes no mercado) e comecei a desanimar.

Durante 2 anos e meio pesei-me  todos os meses, às 07 da manhã em jejum e digo-vos que nesse tempo foram poucas as vezes que sai da balança feliz, apesar de ter uma alimentação correcta e treinar bastante.

E foi aqui que entrou o meu PT e me proibiu de fazer avaliações nestas balanças, mesmo naquela que temos à disposição e que é supostamente top das tops e porquê?

Primeiro vamos perceber o que é uma balança de bioimpedância:

"Este é um método não invasivo com base na medição das propriedades elétricas do corpo humano, na composição dos vários tecidos que se formam e o conteúdo total de água do corpo. A forma pela qual um bioimpedância elétrica funciona é simples: Partimos do pressuposto de que a água é um bom condutor de eletricidade. Nossos músculo, ossos e vasos sanguíneos têm um grande percentagem de água, de modo que a corrente passa facilmente através deles. No entanto, a massa de gordura é um mau condutor, de modo que gera a resistência ao fluxo de corrente
Alguns parâmetros devem ser levados em conta ao fazer a bioimpedância são o nível de hidratação, idade, sexo, raça e condição física.
– Não realizar atividade física vigorosa pelo menos 24 horas antes, – Esvaziar a bexiga antes do teste, – Deve preceder o jejum de 3-4 horas, – Não tome cafeína, chá ou diuréticos previamente, – Não deve ser realizada em mulheres durante a menstruação, – Se deve remover os elementos metálicos" - fonte dica sobre saude.

Percebem por este pequeno excerto que estas balanças têm tudo para dar errado e nos deixar loucas, dependendo de um monte de factores. Para ajudar ainda mais vou contar-vos o meu caso.

Quando fiz a tal avaliação dos 30% de massa gorda eu ia ao ginásio muito pouco, portanto quando fizeram a minha ficha no sistema, colocaram-me no padrão normal da balança e assim estive, o problema é que com o passar do tempo eu comecei a treinar mais, a sentir o meu corpo a mudar, a aumentar cada vez mais cargas e sempre que ia à balança tinha valores entre os 24 e os 27% de massa gorda e isso deixava-me altamente frustrada comigo mesma. Quantas vezes não ia para o ginásio cheia de esperança, porque tinha dado tudo nesse mês, chegava à balança dava um valor alto e eu ficava tão zangada comigo mesmo que acabava por das duas uma: já não treinava nada de jeito nessa manhã e ficava de tal maneira triste que só me apetecia chorar ou vingava-me na comida com o pensamento perdida por 100 perdida por 1000.

Até que o ano passado em Outubro, comentei isto com o meu PT e ele disse-me que era impossível eu ter aquele valor, fomos até à maquina e quando ele insere os meus dados percebe que eu continuo em modo normal (ou seja pessoa que treina entre 3 a 4 vezes por semana, com treinos essencialmente de cardio e pesos leves) quando eu deveria estar em modo atleta. Mudou aquilo, pesei-me e sabem o que aconteceu?

A minha massa gorda desceu de 26% para 17% e eu fiquei confusa, sabem porquê? Na minha cabeça um número ideal de massa gorda eram os 17%, era ai que eu queria chegar, era ai que achava que me ia sentir bem, como sempre me vi com aquele valor alto sempre achei que o meu corpo era aquele número redondo, e ao ver um valor tão baixo (o que eu tinha idealizado) simplesmente não me identifiquei, senti que afinal aquele 17% não me fazia feliz e precisava de baixar mais. 

Percebem agora o vulnerabilidade destas balanças? A facilidade que é em podermos enganar-nos com um número, a imagem que criamos de um simples número e a obsessão que vivemos para o atingir? E se vos disser que um dia me esqueci de tirar o meu pulsómetro e ao pesar-me a balança deu 14%, logo de seguida retirei o pulsómetro e voltou aos 17. 

Não digo que estas balanças não sejam boas para irmos monitorizando a coisa, agora na maioria dos casos basta termos bebido menos água no dia anterior ou termos comido antes da avaliação para a coisa já não correr bem e depois?

Depois ficamos frustradas connosco próprias e isso é meio caminho andando para se desistir do ginásio, para nos entregarmos à gula ou para nos punirmos ainda mais com exercício e dietas restritas. 

Eu fazia avaliações sozinha porque o meu PT não concorda com estas balanças, e para ele ou se faz avaliações com sistema de pregas, ou então a melhor avaliação é mesmo vermos a nossa evolução tanto em treino como em fotos. O sistema de pregas é considerado mais fiável pois é feito com um adipómetro, a questão é que deve ser feito sempre pela mesma pessoa, ou corremos o risco de um mês nos medirem uma zona e noutro mês nos medirem outra e os valores não baterem certo, para além disso nem todos os ginásios disponibilizam esta opção. 

Depois desta última avaliação, ele proibiu-me de ir à balança e eu deixei de o fazer, portanto não me peso desde o final do ano passado. O que eu faço para perceber o meu progresso? Peso-me numa balança normal, tiro medidas e fotos e digo-vos que não há melhor comparação da nossa composição corporal do que um antes e depois. 

Acima de tudo o que vos quero passar com este texto, é que não se deixem asfixiar por um número, não imaginem que a vossa vida vai ser muito mais espectacular quando atingirem determinado valor , porque na realidade na maioria das vezes, é raro sentirmo-nos satisfeitas com aquilo que alcançamos e acabamos por nos punir quando a verdade é só uma: Tudo não passa de um simples número. 

3 comentários :

  1. Hoje é o dia de quem está onde tantas vezes não está mais ninguém! Hoje é o nosso dia: Feliz Dia Internacional dos Enfermeiros

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  2. gosto muito de ler este tipo de posts e acho que tens toda a razão, eu comprei uma balança dessas para casa, e foi o pior dinheiro que gastei, os valores são super estranhos e variam todos os dias, houve uma altura que andava mesmo triste, depois um dia li um artigo sobre estas balanças e deixei de usar. Por isso é sempre bom este tipo de assuntos ser discutido.

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    1. de facto estas balanças variam muito e claro quanto mais baratas forem maior a probabilidade de errarem :)

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