Olha para ti com olhos de ver


Há um dia em que acordas, olhas para ti ao espelho e odeias tudo o que vês. Sentes-te gorda, flácida, encolhes a barriga na esperança que ela evapore, apertas as pernas para que pareçam mais magras e ficas a sonhar com o dia em que serás mais magra e feliz. É segunda feira e prometes que todos os disparates do fim de semana vão ficar por lá e que agora é que é, agora é que vais começar a mudar, agora é que vais ser finalmente magra e feliz.

Restringes a tua alimentação, cortas nos hidratos, comes mais legumes e dás tudo de ti no ginásio, estás tão motivada que sentes que ninguém te vai parar, este é o teu momento e tu vais ser finalmente magra e feliz.

Magra e feliz, magra e feliz, magra e feliz... vivi com este conceito de "felicidade" tanto tempo na minha vida, que me esqueci do que era ser simplesmente eu na minha pele, que me esqueci de olhar verdadeiramente para mim.

A verdade é que o nosso cérebro consegue criar imagens tão distorcidas de nós próprias, que aquele magra e feliz com nós imaginamos torna-se numa obsessão, e quando chegamos ao número que idealizámos como magra e feliz e nos olhamos ao espelho, 90% das vezes não nos sentimos magras e felizes.

Culpa, tristeza, desmotivação, o círculo começa novamente, comemos para afagar as mágoas, comemos porque já que nunca seremos magras e felizes, então vamos aproveitar aquele momento gordo e feliz.

Mas na maioria das vezes não somos gordas, mas também não somos felizes, somos sim prisioneiras de um número que imaginamos como felicidade, de uma medida que imaginamos como a ideal mas no fundo quando lá conseguimos chegar raramente sentimos sensação de missão cumprida.



As dietas com prazo de validade tem este problema em nós, começamos numa data e dizemos que até x temos que estar y, esperamos demasiado de algo e quando as coisas não correm como queremos, porque o corpo não é uma máquina com botão de teste em que basta carregar e tudo se evapora, conseguimos ser as piores para nós mesmas.

Quantas vezes não me odiei porque não tinha a barriga como queria. Quantas vezes não tive nojo (sim nojo)  de mim própria porque achava as pernas gordas, os braços flácidos e o rabo cheio de celulite. Não sentem que é tão redutor vivermos a vida fixadas num número, num ideal, sem aproveitarmos aquilo que realmente somos, não será redutor viver a vida a olhar para nós sempre de forma negativa?

 Sofri muito na minha pele durante anos, odiei tudo o que vi ao espelho e só passei a aceitar que não sou perfeita quando deixei os números e passei a olhar-me com olhos de ver.

"Caramba estas leggings ficam-me mesmo bem. Esta foto de fevereiro está bem melhor do que a de janeiro. Olha afinal a barriga até esta mais seca do que pensava. É a da pugliesi? Não não é, mas está igual ao que estava antigamente? Não? Então vou ficar orgulhosa do meu progresso porque lutei por ele, e não achar que ainda falta tanto para algo que tenho como ideal.

Este processo de olhar para nós com olhos de ver não é fácil, agradecer pelas pequenas conquistas em vez de criticar o que ainda não conseguimos ter, é efectivamente duro. Demorei muito tempo a conseguir olhar para mim sem idealizações, sem ideias com termo de validade, e a verdade é que apesar de querer melhorar, eu passei a sentir-me magra e feliz no dia em que olhei para mim com olhos de ver.

Se tenho momentos menos bons em que acho que não estou tão bem quanto gostaria? Claro que sim, sou um ser humano e há dias em que me sinto melhor que outros, mas aprendi a relativizar isso comparando fotografias antigas com fotografias actuais e quando vejo o meu progresso sinto uma lufada de ar fresco e os maus pensamentos passam. Como já disse aqui, ganhei o hábito de tirar fotos quando comecei a reeducação alimentar, e garanto-vos que não há nada melhor para animar do que ver o nosso antes e depois.

E tu,  já olhaste para ti hoje com olhos de ver?

4 comentários :

  1. És a minha inspiração!

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  2. Um post muito genuíno, gostei!
    Eu tenho momentos em que me "chateio" com o meu corpo mas depois lembro-me de tudo o que ele faz por mim. Posso andar, correr se quiser, mexer os braços, saltar, dobrar-me, comer, falar, ouvir, ver... enfim, viver uma vida independente, ao contrário de muitas pessoas... e nesse momento sinto muita gratidão porque sei que tenho sorte e que o meu corpo tem sido meu amigo. É natural ter momentos de frustração mas, como dizes, é importante lembrarmo-nos das coisas positivas também. Bom domingo!

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    1. é mesmo esse o espirito Joana. Nem sempre é fácil gostarmos de nós, por isso é preciso tentar olhar mais para as coisas boas do que ver sempre o lado negativo de tudo. beijinhos

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