Desculpas para escrever #4 Carta a uma amiga


Mais um tema tão fácil lançado pela Raquel, mais um em que mal coloquei os olhos em cima as palavras começaram a fervilhar por todo o meu corpo e a vontade de escrever tomou conta de mim. Tantas memórias, tantos momentos, tantas histórias começaram a surgir na minha cabeça a uma velocidade tão surreal, que os meus dedos não conseguiam acompanhar a vontade que tinha de te escrever e falar sobre ti.

25 anos. Penso que seja isso mais coisa menos coisa. Há 25 anos que existimos na vida uma da outra. És a minha amiga mais antiga. És também a minha amiga mais bonita e com os anos a passarem - desculpa não quero cair naquele cliché do vinho do Porto, mas caramba se não estás cada dia mais bonita. O teu sorriso é mágico, podes não acreditar mas quando te ris iluminas qualquer sítio onde estás, e não é só pelo facto de teres uma dentição que sim senhor é de fazer inveja a qualquer ser humano, é também porque quando te ris transmites sinceridade e isso funciona como um calmante para quem está contigo.

Os teus olhos cor de mel, a tua pele sempre imaculada, o teu cabelo perfeito, podia estar para aqui a enumerar as mil e uma razões por seres uma das mulheres mais bonitas que conheço, mas isso não chega para mostrar o porquê de te guardar na minha vida como um bem precioso e de te sentir como aquela irmã que nunca tive.

Partilhamos desde muito cedo o mesmo caminho. Estamos literalmente juntas desde os 5 anos, seja na carteira da escola, seja na cadeira da catequese, seja no banco da camioneta que nos levava aos passeios, ou às tardes de fim-de-semana em que tínhamos trabalhos de grupo para fazer. Sempre te admirei desde muito pequena. Eras a mais estudiosa, a minha querida menina das boas notas. Eu sempre fui meio cabeça no ar na escola sabes disso. Falava muito, queria fazer bonecos e jogar à bola com os rapazes e talvez por isso consegui em 2 anos partir a cabeça e o braço e tu sempre achaste que uma boa solução para ossos partidos era passar por água no chafariz da escola e mesmo sabendo hoje em dia, que isso não fazia absolutamente nada, olho com carinho porque tu estavas lá, a tentar ajudar-me à tua maneira.

Fazíamos jogos de quando iríamos casar e quantos filhos iríamos ter, na altura achávamos que ter 6 filhos e casar aos 19 era o auge da espectacularidade, felizmente percebemos rapidamente que o caminho não era por ai. Uma coisa que retenho tanto em ti foi o facto de desde miúda saberes o que querias ser. Sempre te ouvi dizer que serias pediatra, desde muito pequena esse era o teu sonho.
Já eu quis ser bombeira, veterinária, astronauta, dermatologista, arquitecta, padeira e basicamente qualquer profissão que descobrisse e achasse que tinha piada. Lembro-me até que nos testes psicotécnicos tu claramente irias seguir a área da saúde enquanto eu andava ali num limbo entre a área do espectáculo e a agricultura.

Foste a primeira pessoa fora a minha mãe a saber quando me apareceu o período. Foste a primeira pessoa a saber da minha paixão gigante e sem limites pelo Chiquinho e também pelo Roberto e pelo Luís da catequese. Mas também sei que fui a tua primeira pessoa em muitos momentos e muitas paixões. A nossa infância e juventude tem vários cheiros. Cheira a lápis de cera, os quais nós gostávamos de dar nomes pomposos como "verde-cócó". Cheira aos deliciosos croquetes da tua mãe, cheira às festas de anos no último andar do teu prédio, cheira a leite com chocolate e ao pão com manteiga que comíamos ao lanche, cheira às pipocas que comprávamos quando passávamos tardes no play center do Colombo.

Partilhámos momentos felizes e outros idiotas. Eramos as Spice Girls e fazíamos furor pela escola. Partilhámos o facto de eu ter uma paixão cósmica pelo teu irmão (esqueci-me dele lá em cima nas minhas mil e uma paixões). Partilhámos a minha queda aparatosa e estúpida no rio Sado quando fomos ver os golfinhos e eu achava que não precisava de ajuda nenhuma para sair do barco de borracha. Partilhámos segredos, partilhámos conversas, partilhámos toda uma vida que se foi formando com o passar dos anos.

Separamo-nos no liceu, porque tal como sempre soubeste, o teu caminho passava pela área da saúde e eu lá percebi que gostava era de fazer bonecos e que ir para artes não significava obrigatoriamente ser professor de EVT. Mesmo assim, continuamos juntas porque amizades destas não se quebram assim. Não seguiste pediatria mas mantiveste-te fiel à área da saúde e tornaste-te uma maravilhosa dietista. Felizmente aqui mantive a coerência e também fui fiel aquilo que acredito saber fazer, portanto tornei-me designer. 

Os anos foram passando, as vezes que nos fomos vendo acabaram por ser menos, fruto do trabalho e de todas aquelas obrigações chatas que a vida de adulto tem, mas nunca em momento algum deixaste de fazer parte da minha vida. Crescemos, amadurecemos e evoluímos.

Vi-te casar. Eras a noiva mais bonita que já vi. O teu casamento foi especial, ali estavas tu perfeita, a dividir aquele momento com todos os que amavas. Eu senti-me agradecida e afortunada por ter tido o privilégio de mais uma vez dividir aquele momento bonito contigo.

E chegamos exactamente ao momento mais bonito de todos. A tua Matilde. Que nasce daqui a uns dias e por quem sinto um amor enorme, tal como sinto por ti. É a minha sobrinha emprestada, que te fez desde o primeiro momento que te vi uma mulher ainda mais bonita, mais realizada e com o sorriso ainda mais iluminado. A Matilde fica-te tão bem.

Olhar para este exacto momento onde te encontras agora, com a Matilde a poucos dias de conhecer o mundo, deixa-me com o coração confortado. Faz-me olhar para tudo o que vivemos e perceber que estamos efectivamente juntas à uma vida e poder estar presente nesta tua nova fase deixa-me muito orgulhosa da grande amiga que és.

Tu estás num nível de família. Aquela família que não é de sangue mas não faz mal porque é como se fosse. E sei disso por tudo isto e por tantas outras coisas que só a nós dizem respeito, mas especialmente porque tu estás naquele pequeno grupo em que não é preciso um lembrete de Facebook para saber exactamente o dia do teu aniversário, o dia em que te casaste, o teu nome completo ou da quantidade de anos que já passaram desde que trocámos o primeiro olá.

Um beijo muito apertado e cheio de amor para ti, para a minha querida Matilde, para o Nuno e para o Ruca. Gosto mesmo muito, muito de ti.

desculpas para escrever by raquel caldevilla

4 comentários :

  1. Que linda carta, Vânia! Obrigada por cederes mais uma vez ao meu desafio. Revi-me muito naquilo que escreveste :)

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  2. Uma carta emocionante... muito pessoal, e que mostra um amor gigante. Adorei ler. Beijo para ambas, e felicidade para a futura mãe.

    http://nerdychillout.blogspot.pt/

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  3. Meu amor!

    Que palavras tão bonitas, conseguiste espelhar de uma forma tão magica esta nossa ligação. Tens um cantinho muito especial, só teu, no meu coração. Mas sabes, por mais que tente, não é nada fácil encontrar vocabulário que esteja à tua altura e que consiga descrever o sentimento que tenho por ti.
    Um quarto de século de amizade, de peripécias e histórias para contar. Só nós sabemos o quão importantes elas são e o que significam na nossa vida. Só eu sei o significado que tens para mim...
    Minha querida, sabes que também és a minha amiga mais antiga, a que conheço há mais anos e quero guardar-te pela minha vida fora. Se a minha infância foi feliz, é porque tu fizeste parte dela e sempre que me quero recordar de algo, a tua imagem está presente. E sinto-me tão privilegiada por ter sido assim e por te ter tido como companheira em tantos momentos.
    Fazes-me rir com as tuas teorias e sempre amei o teu sentido de humor. Esse teu ar " goofy" torna-te ainda mais bonita.Tens todo um historial de pérolas, mas o teu "o que vai volta" com aquele ar magistral na fila do refeitorio da Roque Gameiro, vai ficar para sempre.
    És uma guerreira e, apesar de a vida nem sempre ter sido fácil, ultrapassaste tudo com esse sorriso que te caracteriza. Quem como eu sabe disso, só te pode admirar e reconhecer o teu esforço. E é tão reconfortante, ver como estás bem e feliz com o que alcanças-te.
    Temos tantos capítulos ainda por escrever neste nosso livro de aventuras, cabe-nós a nós recheá-lo de momentos igualmente felizes como foram até agora e, ainda para mais,para além do Pablo e do Ruca, vamos ter a minha querida Matilde para nos acompanhar.
    És muitíssimo especial para mim e eu adoro-te do fundo do meu coração!

    A sempre tua Catia.
    PS- era escusado teres-me feito chorar desalmadamente a estas horas, é que o cocktail hormonal pelo qual estou a passar, só veio agravar a Maria Madalena que há em mim<3

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  4. Tão bonita a carta, fez-me sorrir :) Amizades assim são a melhor coisa! beijinhos****

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