Desculpas para escrever #1 - Sim



Digo sim muitas vezes, sou na maior parte do tempo uma pessoa positiva e gosto de encarar a vida com um bom sim a sorrir. Talvez por dizer tantos sim, envolvo-me em demasiadas coisas ao mesmo tempo e entrego-me sempre com tanta intensidade, que inevitavelmente há dias em que me pergunto a mim própria se vale realmente a pena ser assim, se por vezes ser um bocadinho egoísta não me facilitaria a vida.


É possível que facilitasse sim, mas desde miúda que aprendi que as dificuldades fazem parte deste longo caminho a que chamamos vida, e que foram aqueles momentos difíceis, aquela altura em que quis algo e não pude ter, ou o dia em que decidi ir trabalhar nos embrulhos de Natal aos 17 anos para comprar um computador, que me moldaram para o que sou hoje.

Digo sim ao amor pelos patudos com todas as minhas forças. Digo sim a este voluntariado que veio preencher uma parte da minha vida e mostrar-me que consigo gerir melhor o tempo do que pensava. Digo sim aqueles sábados de manhã, em que depois de uma semana inteira de trabalho muitas vezes cansativa, me levanto para lhes poder dar um pouco de mim, aqueles que pedem tão pouco.

Digo sim ao exercício físico, mesmo que isso implique acordar às 06.15h da manhã em dias demasiado frios e em que a cama claramente se torna irresistível. Digo sim não por modas, ou sazonalmente, digo sim todo o ano porque nunca fui muito disciplinada com nada e o compromisso do exercício veio mostrar-me que quando quero realmente uma coisa eu consigo. Digo sim a este estilo de vida mais saudável há 2 anos porque quando ali estou a treinar e a suar aquele é o meu momento, ali não penso em mais nada, ali estou eu e só eu. 

Digo sim a concertos, a praia, a dias de ronha passados só com ele e o nosso gato, a convites de jantar inesperados e a viagens. Digo sim sem pensar duas vezes porque são momentos como estes que me trazem a paz de espírito que necessito para equilibrar a minha vida. Não sou uma pessoa calma, falo muito, rio-me alto, sinto muito as coisas, choro quando me enervo, escondo e sofro em silêncio quando realmente algo me magoa à séria.

E é aqui neste limbo que estou há tantos anos, mais precisamente há 10 quando alguém me perguntou se te poderia ir visitar em Fevereiro porque estavas meio adoentada e eu sem pensar muito na coisa disse que não.
Tinha uma festa ou lá o que era e não me dava muito jeito sair de Lisboa naquela altura, mas ficava a promessa que assim que pudesse rumava ao norte. Esperaste 5 meses pelo meu sim, pela visita prometida enquanto definhavas numa doença que te roubou tudo o que eras enquanto pessoa, que te roubou a independência, as lembranças e te prendeu a um corpo que só reagia quando puxávamos por ti. Esperaste 5 meses e foste-te embora. Deixaste-me numa altura em que não o esperava, deixaste-me antes de me aperceber que te neguei um sim, aquele de que me irei arrepender por toda a minha vida mesmo sabendo que te amei de uma forma indescritível durante todos os anos em que assisti à perda inevitável da tua identidade.

E mesmo quando me diziam que já não reconhecias nada, eu sei que tu sabias que aquela voz que falava contigo ou te pintava as unhas era a mesma que carregaste ao colo quando eu adormecia no sofá, ou levaste a apanhar morangos durante longas tardes de Verão.

Há palavras que nunca deveriam ser negadas a ninguém. As minhas quando penso hoje em dia no assunto, carregam uma magoa demasiado negra, um buraco muito escuro que tento esconder com coisas que me absorvam. Há um dia em que terei de me perdoar, em que terei de dar um sim a mim mesma para seguir em frente. Sei que te amei mais do que alguém pode imaginar e é nisso que me agarro quando choro sem ninguém ver por te ter negado o nosso último sim.

Para a minha avó.
Projecto Desculpas para Escrever da Raquel Caldevilla

9 comentários :

  1. Que lindo, lindona! És mesmo querida e especial!

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  2. Minha querida,

    Arrepiaste-me e emocionaste-me, porque ousaste falar da tua alma. É preciso ter muita coragem, mas prometo que valerá a pena!
    Espero que um dia te possas perdoar, porque eu tenho a certeza que, onde quer que a tua avó esteja, já te perdoou há muito.

    Um beijo enorme e obrigada por este texto do coração. :)

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    1. muito obrigada Raquel pelo teu carinho e por teres criado este projecto maravilhoso que é o desculpas para escrever. beijinhos grandes

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  3. Meu amor as palavras não chegam para descrever o quanto os teus textos, e este em particular, me tocam!
    Não creio que a tua avó quisesse que tu te martirizasses com isso! Aproveitas-te bem o tempo que tiveste com ela, amas-te-a e ela sabe disso.
    A vida é assim, um dia estamos cá, o outro já não! Ficou algo por dizer? Se calhar não. De certeza que ela sabe o quanto a amas e isso é o mais importante!

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  4. Emocionante. Somos parecidas em algumas coisas e fizeste-me ficar com o lábio tremido e a lágrima a querer cair. :) Muito antes de chegar ao fim do texto, percebi que já "estamos juntas" há imenso tempo, pois percebi logo de quem estavas a falar e isso tocou-me profundamente, apercebi-me que afinal tenho uma ligação contigo, um laço que já tem alguns anos. Quando as palavras são ditas com o coração, chegam onde têm de chegar. Beijinhos***** Mel.

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    1. querida mel :) que bom ler-te, há tantos anos que nos "conhecemos" neste meio, fico mesmo feliz por saber que por mais que o tempo passe, continuas por aqui. beijinhos grandes

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  5. Que texto.. Nem sei o que te diga. Acho que há muito tempo que não lia nada assim.
    Vivo muitas vezes com medo de perder, com medo que algo de mal aconteça. Sei que devia relaxar e aproveitar os momentos da vida sem receio, mas é mais forte que eu e acho que está mesmo em mim. Tenho medo de perder quem amo e acima de tudo tenho medo de nunca ter dado o suficiente...

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  6. Que texto arrebatador minha querida. Não há muitas palavras..e acho que tens mesmo que te perdoar, pois não tenho dúvidas que ela já te perdoou :) és linda <3 *

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