Questões que às vezes se colocam



O que pensar quando vivemos num país onde ser velho é pior que ser desempregado, pois estes ainda vão recebendo os subsídios, que os velhos depois de trabalhar uma vida estão a pagar com os constantes cortes nas suas reformas?

O que achar quando aos 28 anos me sinto uma privilegiada pois até consegui alugar uma casa, quando a maior parte das pessoas da minha idade ainda vive com os pais, e por lá irá continuar durante muito tempo?

O que fazer quando vejo muitos amigos a irem embora de um país que se está a transformar numa aldeia abandonada?

Como agir, num país que trocou os contratos pelos recibos, que passou a olhar para os seus trabalhadores como temporários, e não lhes reconhece quaisquer direitos mas exige-lhes todos os deveres, fazendo-os sentir descartáveis?

O que pensar de um país que se está a vender ao desbarato, que está a perder toda a sua identidade, a dar-se às metades a uma série de sanguessugas, transmitindo a falsa esperança que é assim que as coisas se resolvem.

Como reagir a um país que olha para a saúde e a educação como coisas não prioritárias, onde temos cada vez mais abandono escolar e pessoas a morrer em listas de espera intermináveis?

O que fazer quando se vive num país que recuou 30 anos, onde o trabalho é tão barato que vemos pessoas em situações vergonhosas, de total precariedade mas que se resignam porque é melhor assim do que não ter nada?

Há quem diga que não devemos ver só as coisas más e que é preciso ter esperança, mas quando dou por mim a relembrar um texto que escrevi aqui há quase dois anos e percebo que nada mudou, sinto medo....

Sinto raiva, angustia, e a garganta apertada. 
Sinto claramente o coração pesado por viver num país que já deixou de o ser há muito tempo, para passar a ser o tabuleiro de diversões de tantos outros.

8 comentários :

  1. Faço das tuas palavras minhas... Mas como? :(

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Vivemos claramente uma época muio difícil em vários campos e com o passar dos anos as coisas têm piorado muito, é de ficar triste que a geração mais formada que alguma vez o nosso pais teve vá dar esses conhecimentos a outros porque aqui não dá. Faz pensar o que será de Portugal quando nos jovens formos velhos.

      Eliminar
  2. Sinto-me sempre sortuda no meio de tudo isto, porque embora já tenha passado por situações difíceis (como tu sabes), consegui ter o que desejava e seguir em frente. Há sempre pessoas bem pior que nós...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. sim concordo contigo, mas quando vejo amigos que se fartam de lutar, que até contribuiram para a taxa de natalidade do país e têm de sair porque não dá mais custa. Ou quando vejo os meus sogros os dois reformados a levarem todos os anos cortes absurdos nas reformas, depois de anos de serviço sem nunca terem faltado ao trabalho, tenho de sentir injustiça. Tambem ja tive momentos complicados (tu sabes) e dei a volta, mas não deixo de sentir revolta pelo que vejo acontecer à minha volta.

      Eliminar
  3. Se calhar porque ainda não o vivi na pele, não sinto essa angústia tão grande. E como trabalho no mundo do RH, se calhar, tenho uma outra visão das coisas e consigo ver que as coisas não são tão más quanto as pintamos. Que há excepções e situações específicas e que há quem possa e deva queixar-se - há, claro que há. Mas também há muita gente a encostar-se ao facto de "termos um país assim e assado". Atenção - não estou a criticar o teu post nem a desvalorizar o que sentes e passaste - nada disso. Tive em casa o exemplo de alguém que ao fim de 26 anos de trabalho levou um pontapé e ficou completamente desamparada. Por isso, sei o que é sentir essa injustiça. Mas, ao mesmo tempo, também acho que não estamos tão mal quanto o apregoamos. Ou que JÁ não estamos tão mal.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Sabes este post foi mais um desabafo por ter assistido à partida de mais um amigo para o estrangeiro, mais um que lutou e teve de sair.
      Felizmente neste momento não me posso queixar pois estou realizada profissionalmente numa área que é das piores no nosso país e onde há muita precariedade, tenho a minha casa, sou independente e no geral uma boa vida, mas apesar de concordar que há muita gente a encostar-se não posso concordar quando dizes que as coisas já não estão tão más, acho mesmo que chegamos a 2014 com a pior recessão de sempre e com um país completamente estagnado.

      Nas ultimas semanas tenho ouvido quase todos os dias pelos nossos politicos que a crise vai terminar este ano, mas isso significa concretamente o quê?

      Temos dos salários mais baixos da europa (o nosso salário mínmo são 485€, as rendas de alguns T1 rondam os 400-500€), somos o terceiro país da Europa com a maior taxa de desemprego, foram-nos retirados feriados importantes para a história do nosso país (Republica e Indepêndencia).

      A luz, a água e o gás tiveram este ano subidas astronomicas, somos o quarto pais da europa com a taxa de iva mais alta, onde pagamos mais impostos e não temos retorno.

      Temos uma sobrecarga de impostos brutal mas nada funciona, vais à segurança social, finanças ou hospital e ficas horas à espera, ainda esta semana ouvi a noticia de uma senhora que por ter esperado 2 anos por um exame ao cancro que tinha, agora já não é possível operar e portanto ela vai morrer.

      Portanto quando oiço que as coisas já não estão tão más, penso mesmo que os média e a publicidade estão realmente a fazer bem o seu trabalho.

      Partilho contigo este texto que fala justamente sobre o fim da crise em 2014: http://noticiasonline89.com/2013/11/29/o-dia-em-que-acabou-a-crise/

      Eliminar
    2. Vânia, mas eu concordo com tudo isso. E tenho noção dos factos e sei que contra factos não há argumentos.
      Mas quando digo que as coisas já não estão assim tão más, refiro-me ao desemprego e às perspectivas de trabalho dos próximos tempos - é aquilo a que tenho acesso e que consigo "defender" pela área em que trabalho. Sei que o mercado, lentamente, está a começar a regressar à normalidade, que existem mais postos de trabalho que nos últimos três anos... Tudo sinais que, aos pouquinhos, já está a existir um pequeno levantar deste buraco.
      Mas é claro que não posso deixar de te dar razão quando me falas dos serviços públicos, dos ordenados, das rendas... Agora cruzar os braços e deixar ir ao sabor do vento, ir abaixo constantemente não ajuda. Eu sei que ninguém é de ferro e que numa situação destas não dá para andar de sorriso aberto todos os dias. Mas também não dura para sempre... Viver do rancor, da tristeza e dos queixumes só faz é mal.
      Mas acho que percebes o que quero dizer... Não há mal que dure para sempre e isto, a pouco e pouco, acabará por dar a volta. Pode é demorar... E nunca será perfeito, é claro. Nada o é.

      Eliminar
    3. Acho que tínhamos aqui tantooo pano para conversa não é? Mas sim concordo contigo ser negativo e chorar constantemente as coisas más nao faz bem a ninguém e nós somos um povo de muitos queixumes, também quero acreditar que as coisas aos poucos podem melhorar mas como nos últimos tempos tenho assistido a tantos amigos próximos irem-se embora fico sempre com uma pequena revolta pois sei que o fazem de coração pesado e custa ver isso:-)

      Eliminar