Este país não é para ninguém



Há demasiado tempo que se fala em crise, uma crise financeira sem precedentes, mas creio que lado a lado se encontra uma crise de valores vergonhosa e dessa pouco se fala. Não há regras, as pessoas fazem simplesmente o que querem e lhes apetece porque sabem que do outro lado está muito mau e por isso acham-se no direito de abusar de quem precisa.

Ontem soube de um caso de uma pessoa muito chegada que me chocou tremendamente, os chefes chamaram todos os funcionários e queriam que todos sem excepção assinassem um papel em como declaravam prescindir do subsídio de férias e de natal. Como legalmente têm de pagar, a única forma de não o fazerem era assim, ninguém assinou e foram todos ameaçados com despedimentos. 

Sinto-me envergonhada de viver num país assim, num local onde se brinca com a vida das pessoas, porque há quem precise e se tenha de sujeitar, é triste, vergonhoso e nojento.

Também a mim já me aconteceu algo deplorável, contratarem-me com a promessa de um contrato, e durante meses aproveitarem-se dos meus recibos para irem arrastando esta situação, sempre com a promessa de um contrato, sempre com a história de que este mês não dá, mas para o próximo sim.
Entretanto tive que fechar actividade porque o meu ano de isenção ia acabar e no lugar do suposto contrato surgiu a brilhante ideia de receber totalmente por fora, assim uma espécie de padrinho da mafia...,a desculpa essa era sempre a mesma, isto está mau, não podemos fazer já contrato mas queremos.

Confesso que se há coisa que tenho de bom, é discernimento e capacidade para perceber quando as situações entram num ciclo vicioso de abuso, e como me recuso tremendamente a compactuar com estes esquemas não aceitei manter-me numa situação laboral de precariedade total. Felizmente a vida tem-me tirado com uma mão e de certa forma dá-me com outra.

Mas são casos como estes que cada vez mais acontecem e as pessoas não denunciam, não saltam fora, porque têm medo do futuro, porque é melhor assim, receber por fora com o risco de não nos pagarem e de nos mandarem embora a qualquer altura do que ir lá para fora sem nada, e agarram-se tanto a este nada que não percebem que no fundo estão a viver uma fantasia que mais cedo ou mais tarde vai dar buraco. É cruel viver num país assim.

Claro que há sempre quem diga: "se estás mal muda-te",  mas claramente as pessoas que dizem isto não sabem da decisão difícil que é decidir emigrar. Muita gente quando visita um país  acha sempre que ali sim seria feliz, mas essa é a visão do turista, a visão bonita e romântica da coisa, porque mudar mesmo, ir para outro local completamente diferente não é fácil, e quem disser o contrário está a mentir, há muita coisa que se deixa para trás, e acredito que há muitos momentos de solidão.

Porque a verdade é que há uma grande diferença entre quem emigra porque quer, porque sempre foi o seu sonho viver alguns anos noutro local, para crescer e ter outra aprendizagem, e aqueles que emigram porque não há mais nada a fazer, porque o futuro é negro, porque a esperança está a zeros e porque um dia se acorda e se percebe que este país não é para ninguém.

E são esses que claramente levam a bagagem mais pesada.

5 comentários :

  1. Como sabes perfeitamente esta conversa fez-me lembrar tudo o que falamos quando fomos beber cafe. Ja sabes qual e a minha opinião. Realmente o circulo esta a fechar-se e temos mesmo de pensar o que fazer com as nossas vidas.

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  2. Lamentável país de truques por baixo da mesa, de "chicos espertos", de corrupção vária, etc... Valha-nos gente como tu, que procura denunciar estes males e tenta lutar contra os seus efeitos nefastos! São pessoas assim que ainda me fazem acreditar no futuro! Muitos beijinhos

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  3. Sou também eu o retrato vivo disso. O meu Tsuripo tem amanhã o seu último dia ao serviço também. Este país está podre e cheira tão mal que me causa náuseas!

    beijo grande

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  4. Concordo, “se estás mal muda-te” não é assim tão simples. Sempre quis emigrar, viver noutro país e ganhar experiências diferentes mas isto não acontece com toda a gente. Estou farta de ver amigos a serem obrigados a emigrar e penso naqueles que provavelmente terão de o fazer no futuro e não, não é nada fácil…

    [howtoliveathousandlives.blogspot.pt]

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  5. A mim ninguém me pediu para assinar coisa nenhuma, cortaram-me os 2 subsídios e 5% do ordenado!

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