Há um humano debaixo da cama....



Ontem de manhã enquanto ia para o trabalho veio-me à cabeça uma música tosca que nós os pequenos da primária costumávamos cantalorar dedicada às Susanas e dizia assim:
"Susana banana, macaca cigana matou o marido debaixo da cama"

Não só é perturbador crianças de 8/9 anos cantarem isto, como pior ainda é vir-me à memória e dar por mim com esta música em loop na cabeça. A verdade é que isto é do mais parvo que há, mas o grave desta situação, é que me lembrei no exacto momento em que a música me veio à cabeça, que esta pequena frase aconteceu realmente na minha vida. Não matei nenhum marido nem conheço quem o tenha feito, mas tive de facto uma Susana enfiada debaixo da cama.

Ok neste momento começam a nascer certas dúvidas sobre a minha orientação sexual, mas não se preocupem que ela está no caminho certo, e atentemos ao facto que esta história passou-se há 19 anos atrás (dito assim cacete, sinto-me velha como um trapo) tendo eu portanto uns inocentes 8 anos.

Lembro-me que deviam ser umas 13h, eu estava no ATL juntamente com a minha amiga Susana. Não haviam aulas mas apesar de morar mesmo ao lado da escola, a minha querida mãe, sempre zelosa da sua criança (e talvez consciente que eu nunca bati muito bem da cabeça) deu sempre ordens explícitas que eu só podia sair quando ela me fosse buscar, no entanto não sei como, eu uma criança lingrinhas e desengonçada, consegui dar a volta à educadora, dizendo-lhe que me sentia doente desde a manhã e que a minha mãe tinha dito que nestes casos eu podia ir para casa. 

A verdade meus caros é que esta desculpa mais que esfarrapada funcionou, e eu e a Susana rumámos a minha casa (eu já tinha chave) para passarmos uma bela tarde juntas, a experimentar toda a roupa e sapatos da minha mãe e fazer intermináveis desfiles quais Cláudia Schiffer e Cindy Crawford da Reboleira. 

A tarde corria muito agradável na companhia da minha amiga, quando oiço alguém colocar as chaves na porta. Estávamos as duas no quarto, e eu cheia de medo, enfio a pequena debaixo da cama e digo-lhe com um ar confiante que tudo ia correr muito bem.

Vou a correr até à porta, era a minha mãe e o meu padrasto que tinham saído do trabalho mais cedo e decidiram ir a casa almoçar. Raios a minha mãe NUNCA, mas NUNCA saía mais cedo e logo naquele dia aparece-me em casa munida de bifes, sumo e pão de ló, preparada para fazer um banquete de horas. Eu muito nervosa digo olá, enquanto a minha mãe se passa um bocadinho por eu estar em casa, enfim preocupações de mãe que rapidamente me saíram dos ouvidos uma vez que eu tinha o meu próprio problema: A SUSANA DEBAIXO DA CAMA.

Os adultos lá foram fazer o comer, eu andava para trás e para a frente a tentar arranjar uma maneira de conseguir fechar a porta da cozinha, para tirar a Susana do meu quarto e mandá-la embora tal e qual um criminoso, mas não tive muito sucesso porque a minha mãe andava pela casa de um lado para o outro e o meu caminho encurralado.

Sei que passou uma hora até o comer, a minha mãe chama-me para comer e lá vou eu. Começo a comer um bocado de bife e sinto-me culpada por ter a minha amiga escondida, afinal eu estou ali a saciar-me com um banquete e a Susana enfiada debaixo da cama, de joelhos tal e qual um gato à espera da oportunidade para sair. 

A consciência começou a pesar, e o que fiz eu? Nope não contei, afinal de contas a mãe ia ralhar e isso era chato, portanto agarrei num bocado de bolo e no meu bongo e decidi que ia alimentar a Susana ( neste momento qualquer resto de dignidade que a pequena tinha, perdeu-se por completo). Portanto lá fui eu com a desculpa que ia brincar, entrava no quarto, ia ter com ela, dava-lhe bongo e bolo e voltava.

E assim se passou mais uma bela hora, até que a minha mãe começou a desconfiar de algo (que mania de fazerem mães inteligentes). A verdade era só uma, eu com aquela idade era terrível para comer, uma fatia de bolo enchia-me para o dia, portanto algo se passava de estranho para eu estar a fazer desaparecer tão rapidamente bolo, bife e frango.

Assim sendo lá fui eu na minha jornada para encher o bandulho da Susana, só que a minha querida e espertinha progenitora decidiu ir atrás. Os nossos quartos estavam ligados por uma varanda e enquanto digo à Susana para beber mais um gole de sumo esta esbugalha os olhos como se tivesse visto um fantasma e voilá, a senhora minha mãe estava na varanda a olhar para nós, ainda sem acreditar que eu tinha uma espécie de refém enfiada debaixo da cama.

O resto claro já imaginam, pobrezinha da Susana que esteve debaixo da cama, má da Vânia que mentiu e deixou a pequena ali enfiada, castigo, castigo, castigo.

Agora a grande questão aqui é: Ok, enfiei a miúda debaixo da cama mas alimentei-a, não deixei que lhe faltasse nada, suminho do bom, bolinho, bife e perninhas de frango, comeu e bebeu à grande e eu é que sou má? Acho mal, principalmente porque eu não tive culpa que a querida mãe se lembrasse de chegar mais cedo.

Portanto Susana se me lês, lembra-te quem te estendeu a mão e nunca te deixou faltar um pedaço de pão mesmo nos momentos mais complicados da infância.

Mãe sei que me lês, acho mal nunca teres reconhecido que eu fui uma espécie de Robin dos Bosques, pois tirei da mesa para dar ao necessitado. Acho mal tenho dito!

2 comentários :

  1. Oh Vânia, mulher, tu francamente... o que me ri contigo. Até consigo imaginar a tua cara no momento do flagrante hahahaha. Muito bom!
    Oh senhora mãe da Vânia, vá lá, teve muita graça!
    beijinhos

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